INÍCIO | O DIRIGENTE ARTHUR

ssim como o talento com a bola, a perspicácia para os negócios também se manifestou em Zico ainda menino. Não é mera coincidência que na pré-adolescência o Galinho tenha recebido o apelido de ‘’Tio Patinhas’’, por preservar muito bem suas economias num cofrinho a exemplo do que faz o personagem de Walt Disney. Cada moedinha era guardada com o intuito de garantir o pão-de-mel e as figurinhas, os principais investimentos dele na época. Organização também era uma de suas marcas. Basta lembrar que Zico anotou todos os seus jogos e gols ao longo da carreira, produzindo material estatístico e histórico raro.

As características de um empreendedor sempre estiveram presentes no comportamento do craque, ocultas pelas circunstâncias profissionais. Com chuteiras penduradas, aos poucos essa aptidão foi se revelando. O resultado são cinco empresas em que é o sócio majoritário: os clubes CFZ do Rio e o de Brasília; a Zico Participações; a boutique UDIFLA e a Lanchonete CFZ. Isso sem contar as incursões do Galinho pela política e por cargos de direção no futebol japonês.

Buscar nos dicionários a definição de empreendedor ajuda a entender a relação do ídolo das jogadas inesquecíveis com o empresário de sucesso. Empreender é cismar, insistir na mesma ordem de idéias e ter postura arrojada. É tomar a iniciativa. Pois dentro de campo Zico era assim. O talento é nato, isso ninguém discute. Mas a insistência no aperfeiçoamento, a capacidade de construir, a criatividade para driblar os adversários e a determinação diante das dificuldades, o diferencia dos demais. Qualidades encontradas também naqueles que sabem comandar e enxergam longe.  De 1967 a 1994 Zico reuniu tudo isso atuando nos gramados. Fora deles, ainda nesse período, tentou plantar a consciência de direitos e deveres nos colegas de profissão. E ainda emprestou sua imagem de ídolo ao ser presidente do sindicato dos atletas profissionais.

O padrinho de Zico e ex-dirigente do Flamengo, George Helal, relaciona o comportamento do Galinho como jogador com o sucesso fora dos campos de futebol.
 

‘’Conheço o Zico desde os treze anos e o tenho como um filho. Além de tudo que fez como ídolo pelo Flamengo, o que mais me fascina nele é o seu sentido de empreendedor. Raros atletas conseguem manter viva a vontade de ousar, de buscar desafios, depois da idolatria no futebol. Interessante é que ele sempre teve muito interesse pelas coisas que estavam fora do campo, tentando aliar esse aprendizado à vida de atleta. Eu via tudo isso na posição de dirigente e amigo, e aos poucos fui admirando ainda mais sua capacidade de liderar. Dentro de campo Zico era um líder nato, o arco e a flecha. Sabia comandar e enxergava longe, entendia como poucos o que representava uma vitória do Flamengo. E nunca usou dessa liderança para levar vantagem sobre os colegas. Muito pelo contrário, brigava por eles, junto com eles, e fazia questão de frisar que a única diferença entre os que estavam ali era o contra-cheque no final do mês. Tinha consciência de sua importância e dava o exemplo. Resultado dessa postura, da conduta na carreira, está nos projetos desenvolvidos hoje por ele, como dono e presidente dos CFZs, além de outras atividades. E certamente ainda vai crescer muito nessa área. Tenho um grande orgulho de ter participado de sua história’’.
 

Dessa forma, quando se despediu oficialmente do futebol como jogador, em 1994, outras portas estavam abertas. O primeiro passo foi dado em março de 1990, no momento em que deixou as chuteiras e a bola de para pôr terno, gravata e usar a caneta como instrumento na Secretaria Nacional de Esportes. Foi o primeiro na função com status de ministro. Ainda que numa atividade bem diferente, Zico buscou um porto seguro e usou sua própria experiência como jogador para definir quais seriam suas metas. E o desenvolvimento do esporte e a melhoria das condições dos atletas foram as prioridades. Após ampla pesquisa e um trabalho coordenado pelo amigo e advogado Antônio Simões, nasceu o projeto da Lei Zico. Para se ter uma idéia do impacto dessas medidas no esporte, questões como a extinção do passe e criação de clubes-empresa, eram pela primeira vez tratadas com a devida seriedade. Posteriormente, esses dois pontos seriam fundamentais numa lei sancionada com outro nome, cópia quase integral do projeto do Galinho.



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O Dirigente Arthur

A passagem de Zico pela secretaria durou um ano e quarenta dias. Ao constatar que não avançaria mais na luta pelo esporte brasileiro e que seu trabalho poderia estar sendo explorado politicamente, o craque decidiu se afastar. Ainda lhe foram oferecidas legendas partidárias e oportunidades para concorrer a cargos políticos no Rio de Janeiro. Mas ali Zico era um peixe fora d´água. Ou talvez um Galinho longe do terreiro. Em abril de 1991 deixou o cargo. No mês seguinte partiu para a Terra do Sol Nascente, convidado para um desafio dentro e fora de campo.

Zico fez lindos gols no Japão, com a camisa do Sumitomo/Kashima, mas fora de campo a contribuição foi ainda maior. Os japoneses esperavam dele ajuda para desenvolver o time e a liga que começava a se estruturar. Com o talento e um faro apurado, transformou o futebol numa febre que passou a movimentar economicamente o país. De projetos para construção de estádios, marketing e até a organização de competições, em tudo isso Zico ajudou. Naquele momento, o craque acabou concretizando parte do sonho que não tinha conseguido realizar no Brasil.

No primeiro ano, Sandra ficou no país. A solidão, somada ao fato de a cultura e a língua serem barreiras difíceis de transpor, fizeram Zico amadurecer uma velha idéia, surgida ainda nos tempos de jogador. Seu irmão Edu havia formado um time de garotos para competir nos condomínios que se chamava Nova Geração. O Galinho gostava da idéia e até ajudou a desenvolvê-la por vários anos na década de 80. Mas o que ele queria mesmo era montar uma escola de futebol. Por telefone, pediu que se procurasse um terreno para a construção de seu Centro de Futebol. Em 1993 começou o trabalho, concluído em 20 de janeiro de 1995, data em que se realiza a festa de São Sebastião, padroeiro da cidade.  A escolha de Rio de Janeiro Sociedade Esportiva aconteceu após uma consulta pública realizada no programa Sem Censura, da TVE.  

O advogado e amigo, Antônio Simões, conta como observou as mudanças em Zico até ele se tornar o empreendedor Arthur Antunes Coimbra.
 

‘’Fui conhecendo a intimidade de Zico e, consequentemente as outras características dele que não estavam relacionadas ao jogador, ao longo de 25 anos de convivência. E cada dia que passava eu mais o admirava, principalmente por sua inteligência, bom senso e equilíbrio nas decisões. No início eu temia um pouco pelo aspecto  empresarial porque, para quem viveu a emoção pura do futebol, passar para a frieza da execução é uma metamorfose complicada. De um modo geral, os grandes empresários nasceram ligados a isso de alguma forma. Quem veio de um mundo de emoção e vai para o mundo da economia encontra problemas. E o Zico vem se adaptando, teve que aprender a dizer ‘não’, por exemplo. Hoje, olho para ele como empresário. Quando nós conversamos, falamos a mesma língua. Ele participa ativamente das negociações e de tudo. Vejo que isso não é o que ele gosta de fazer. Lá no Japão, à beira do campo, penso ser algo mais próximo do que dá prazer, afinal está diante de um desafio como aqueles da época de jogador. Por sinal, ele nunca perdeu essa ligação com os desafios. Quando deixou o futebol foi direto para a secretaria, depois para o Japão e agora ocupa um cargo de alta relevância por lá. Zico é um predestinado’’.
 

A fundação do Centro de Futebol foi o primeiro passo, mas estava longe de ser o último projeto nessa área. Seguindo o caminho natural, apontado na lei que recebeu seu nome, Zico criou o primeiro clube-empresa brasileiro, em julho de 1996: Rio de Janeiro S.E. Problemas envolvendo o registro obrigaram a uma mudança. Em fevereiro de 1998, o clube passou a se chamar CFZ e a terminação ‘do Rio’ veio preservar a idéia original. Ainda com nome provisório, Zico conquistou seu primeiro título como dono e presidente. Em 1997, o CFZ derrotou o Duquecaxiense por 1 x 0, e sagrou-se campeão da Terceira Divisão do Rio.

Enquanto seu clube se desenvolvia no Rio, Zico seguiu trabalhando no Japão. Depois de aposentar-se de vez nos campos, assumiu a função de coordenador-técnico do Kashima Antlers e diretor-técnico, sendo responsável por estruturar o planejamento do clube. Como dirigente ganhou quatro títulos nacionais. Em 1996, voltou a morar no Brasil com a obrigação de viajar pelo menos quatro vezes por ano para definir as diretrizes do Kashima. Nos anos que antecederam a última Copa do Mundo, realizada no Japão e na Coréia do Sul, Zico auxiliou informalmente os japoneses na organização do Mundial, principalmente a cidade de Kashima. Lutou ao lado dos dirigentes para que ela fosse uma das sedes. Até o ano passado, ainda trabalhava para o clube, mas teve de abandonar o cargo para se dedicar à seleção japonesa.

Até 2005, o coração do craque ainda se dividia com Brasília. Desmotivado com a falta de organização, os desmandos e a polticagem do futebol carioca, Zico levou seu time para a capital federal, competindo nos dois lugares. E rapidamente fez sucesso. Fundado em 1º de agosto de 1999, o CFZ já foi campeão invicto do Distrito Federal (2002) e disputou a Copa do Brasil 2003. Ficou em terceiro no Estadual 2003 e participou da Série C do Campeonato Brasileiro pela primeira vez, seguindo com excelente campanha até a quarta fase, quando foi eliminado no mata-mata. Mas para este ano de 2006 não há previsão de atividades do CFZ de Brasília com a participação de Zico. E no início de 2006 o CFZ do Rio firmou uma parceria com um grupo de empresários que dividem a gestão do futebol profissional do clube com o Galinho.




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