Udine 89: a última vez com a "Amarelinha"
|
|||||||
|
O JOGO |
|
O Brasil começou melhor e Renato Gaúcho levou perigo à
meta adversária logo aos 4 minutos. Dois minutos depois, o time
‘’Canarinho’’ abriu o placar, com uma cobrança de falta de Dunga,
disparando uma bomba de longe. Os passes de Zico, além dos dribles de
Renato pela direita, deram molho ao espetáculo. Na Seleção do Resto do
Mundo, o húngaro Detari organizava o time, que empatou o jogo aos 34
minutos. O uruguaio Francescoli aproveitou o rebote de um chute
fortíssimo de Detari, espalmado por Gilmar. Foi a única chance do
Resto do Mundo nos primeiros 45 minutos. O domínio era brasileiro. |
..................................................................................
CURIOSIDADES
CARTA À TORCIDA - Antes de sair do Brasil, Zico enviou
uma carta aos jornais de Friuli, dirigida aos torcedores da Udinese.
Um trecho: "A experiência que vivi no Friuli é um capítulo da minha
vida que nunca vou esquecer (...) Sempre recebi afeto de sua gente,
até daqueles que me julgaram com severidade. (...) Quando estava em
Udine, não escondo de ter pensando na minha terra com saudade, quando
podia voltava para o Rio de Janeiro. Mas depois contava os dias para
voltar para Udine. (...) Com poucos meses em Udine já tinha feito
muitos amigos, gente comum, torcedores que com sua simplicidade e
espontaneidade me faziam sentir um deles. Nunca tive a sensação de ser
um estrangeiro".
INGRESSOS - Por causa da grande procura de ingressos com
antecedência, o bilhete de arquibancada chegou a custar 25 mil liras
(é mais ou menos 1/1, tirando a milhar, ou
seja, R$ 25).
SEM MARADONA – O craque argentino Diego Maradona foi convocado para a
seleção do Resto do Mundo, mas se machucou num jogo do Napoli contra a
Juventus e teve que ficar de fora.
RESPEITÁVEL PÚBLICO -
Em 20 de março, dois dias antes da chegada de Zico em Udine, já haviam
sido vendidos 30 mil ingressos para Brasil x Resto do Mundo. As
'curvas' (arquibancada, atrás do gol - na Itália é o lugar mais barato
do estádio, por isso tradicionalmente é lugar das torcidas
organizadas) e as cadeiras laterais, estavam esgotadas.
HOMENAGEM NA VÉSPERA - Em 26 de março, Zico assistiu à partida entre
Udinese e Sambenedetesse, pela Série A. Levou sorte, como havia
prometido. Após um jejum de vitória, os alvinegros venceram por 2 a 0
e pularam para a terceira posição na classificação do Italiano. No dia
desse jogo, Zico se apresentou no Friuli às 14h, meia hora antes do
início do jogo, para algumas homenagens: A Udinese chamou uma banda
para tocar e entregou a ele uma medalha de ouro.
CAMISA 10 - Zico entregou a camisa 10 que usou na despedida, com um
autógrafo, para a comissão Udine 90.
FICHA TÉCNICA
BRASIL
Gilmar (46' João Leite), Ricardo Rocha (46' Alemão) Mozer, Ricardo
Gomes (46' Júlio César), Junior (68' Branco), Dunga (46' Milton),
Renato Gaúcho (46' Romário), Silas (46' Andrade), Careca (61' Evair),
Zico (80' Douglas), Valdo (57' Tita). TÉCNICO: Sebastião Lazaroni.
RESTO DO MUNDO
Preud'homme (46' Dasaev), João Pinto, Gerets, Demol, Valderrama (46' Mihailovic), Ridvan (46' Colik), Francescoli, Stoikovic, Detari, Rui Águas, Djurovisk. TÉCNICO: Nils Liedholm.
O dia 6 de fevereiro de 1990, uma terça-feira, marcou o fim de uma era
vitoriosa no Flamengo. Vestindo a camisa 10, Zico levou uma geração de
jogadores aos títulos mais importantes da história Rubro-Negra, nas
décadas de 70 e 80. E no Maracanã, onde marcou 333 gols tornando-se o
maior artilheiro dos 53 anos do estádio, fez sua segunda despedida,
esta pelo Flamengo. Atuando no vitorioso time de 81 no primeiro tempo;
e no de 90, na etapa final, enfrentou uma seleção de craques do mundo
(World Cup Masters). Esse era para ter sido o último jogo do
Galinho, aos 37 anos, e ele até pendurou suas chuteiras no vestiário
do estádio após o jogo. Um ato simbólico. Mal sabia que ainda voltaria
a usá-las e do outro lado do mundo, de 1991 a 1994. |
|
|
Zico subiu as escadas
que dão acesso ao gramado do Templo do Futebol às 21h25. Surpreendendo
a todos, partiu do vestiário destinado aos árbitros, no lado oposto ao
dos times. Todos os atletas estavam perfilados. O estádio ficou à meia
luz e um show de raio laser cruzou o campo projetando desenhos na
arquibancada, de onde a torcida acenava com 40 mil lenços brancos. |
|
EMOÇÃO NO ADEUS |
|
Aos 43 minutos,
precisamente às 23h23, o árbitro Wilson Carlos dos Santos parou o
jogo. Zico deu a volta olímpica escoltado por um coro emocionado de
‘’Tá Chegando a Hora’’ especialmente adaptado para o Galinho. Na
lateral do campo, repetiu o gesto simbólico de Carlinhos em 1970 e
entregou suas chuteiras a Pintinho, artilheiro do infantil e apontado
pelos dirigentes do Flamengo como a grande promessa. No centro do
campo, duzentas crianças de um colégio do bairro de Quintino. O craque
fez um discurso de agradecimento destacando as alegrias vividas
na carreira e, às 23h35 se despediu dos quase 90 mil torcedores. |
ARMANDO NOGUEIRA
Maracanã, enfeita de bandeiras tuas arquibancadas que hoje é dia
de festa no futebol. Encomenda um céu repleto de estrelas. Convida
a lua (de preferência, a lua cheia). Veste roupa de domingo nos
teus gandulas. Põe pilha nova no radinho do geraldino. E, por
favor, não esquece de regar a grama (de preferência, com
água-de-cheiro).
Avisa à multidão que ninguém pode
faltar. É despedida do Zico e estou sabendo, de fonte limpa, que,
hoje à noite, ele vai repartir conosco a bela coleção de gols que
fez nos seus vinte anos de Maracanã. Eu até já escolhi o meu:
quero aquela obra-prima, o segundo gol do Brasil contra o Paraguai
nas Eliminatórias do Mundial de 1986. Lembro-me como se fosse
hoje. Zico recebe de Leandro um passe de meia distância já na
linha média dos paraguaios. Um efeito imprevisto retarda a bola
uma fração de segundo. Zico vai passar batido - pensei. Pois sim.
Sem a mais leve hesitação, sem sequer baixar os olhos, ele cata a
bola lá atrás com o peito do pé, dá dois passos e, na mesma
cadência, acerta o canto esquerdo do goleiro paraguaio.
Passei uma semana vendo e revendo no
teipe aquele instante mágico de um corpo em harmonioso movimento
com o tempo e com o espaço. E a bola, coladinha no pé, parecia
amarrada no cadarço da chuteira. Um gol de enciclopédia. Se o
amável leitor aceita uma sugestão, dou-lhe esta: escolha um dos
gols que Zico fez graças à sua arte singular de chutar bola
parada.
Chutar a bola de falta à entrada da
área é um talento que Deus lhe deu mas não de mão beijada, como
imaginam os desavisados. Zico trabalhou seriamente, anos e anos,
para alcançar a perfeição dos efeitos sublimes. À tardinha, quando
terminava o treino, ele costumava ficar sozinho no campo do
Flamengo - ele, uma barreira artificial, uma bola e uma camisa
caprichosamente pendurada no canto superior das traves. A camisa
era o alvo.
Zico passava horas sem fim, chutando
rente à barreira e derrubando a camisa lá de cima das traves.
Chegava o domingo, na cobrança da falta, a bola já estava cansada
de saber onde ela tinha que entrar. Não tenho dúvida em dizer que
tardará muito até que apareça alguém que domine como Zico o dom de
cobrar falta ali da meia-lua.
Celebremos, querido torcedor, a última
noite do maior artilheiro da história do Maracanã. Será uma
despedida de apertar o coração. Se te der vontade de chorar,
chora. Chora sem procurar esconder a pureza da tua emoção. Basta
uma lágrima de amor para imortalizar o futebol de um supercraque.
Cantemos, Maracanã, teu filho ilustre,
relembrando em comunhão os dribles mais vistosos, os passes mais
ditosos, os gols mais luminosos desse fidalgo dos estádios que tem
uma vida cheia de multidões.
Louvemos o poeta Zico que jogava
futebol como se a bola fosse uma rosa entreaberta a seus pés.
..................................................................................
CURIOSIDADES
ENGARRAFAMENTOS – Por volta das 17h, o trânsito nas imediações do Maracanã já era intenso naquela terça-feira, antecipando os habituais engarrafamentos na Praça da Bandeira, Radial Oeste e Avenida Maracanã.
DOAÇÃO - Zico inaugurou a agência da Caixa Econômica no Largo da Carioca depositando a renda do jogo na conta da Casa do Hemofílico, a conta número um.
APRESENTAÇÃO – O astro alemão Rummenigge foi o estrangeiro mais aplaudido pela torcida que lotou o Maracanã. Bebeto e Roberto Dinamite, do Vasco, foram vaiados.
HOMENAGEM - A torcida homenageou os dois campeões de 81 que não puderam participar da festa. Mozer, que estava atuando em Portugal; e Figueiredo, morto num acidente.
IMPRENSA - O jogo foi
transmitido ao vivo para todo o Brasil, inclusive para o Rio. Quatorze
países acompanharam em vídeo teipe: parte da América do Sul, Itália,
Japão e EUA. Mais de 100 jornalistas estrangeiros foram credenciados
para a cobertura. A maioria da Itália. O jornalista Arlérico Jácome
cuidou da organização da imprensa.
CACHÊ - Todos os atletas abriram mão de cachê e receberam um brinde da festa: uma bolsa do Projeto Zico, azul, com as inscrições ‘’World Soccer, Rio de Janeiro, Despedida do Zico’’. Dentro da bolsa havia material esportivo e dois relógios Piaget.
DESFALQUES - O francês Michel Platini esqueceu de pegar o visto e não pôde viajar, impedido quando estava no aeroporto de Orly. O goleiro Fillol não foi liberado por seu clube, o Vélez Sarsfield, assim como Maradona em relação ao Napoli.
ÁRBITRO - Ao ser convidado para apitar o jogo, Arnaldo Cezar fez uma exigência. Disse que só aceitaria se recebesse a camisa de Zico no final. O Galinho propôs uma inédita troca. Trato feito. No final do primeiro tempo, em que Zico atuou pelo Flamengo de 1981, os dois trocaram as camisas.
INGRESSOS - Um ingresso de Geral custou NCz$ 10,00. As arquibancadas foram vendidas por NCz$ 40,00; Cadeira Azul, NCz$ 60,00; Cadeira Especial, NCz$1.000,00 e o Camarote saiu por NCz$ 4.000,00.
..................................................................................
FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 81
Raul (Catarelli), Nei
Dias, Leandro, Marinho e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Titã, Nunes e
Lico.
WORLD CUP MASTERS I
Taffarel, Gentile, Edinho, Krol e Breitner; Falcão, Causio e Mario Kempes;
Valdano (Hansi Muller), Roberto Dinamite e Rummenigge. TÉCNICOS:
Sebastião Lazaroni, Telê
Santana, Edu Coimbra e Carlos Alberto Torres.
FLAMENGO 90
Zé Carlos, Leandro
(Júnior Baiano), Júnior (Uidemar), Fernando e Leonardo; Aílton, Edu e
Zico; Renato, Bujica e Zinho.
WORLD CUP MASTERS II
Taffarel, Gerets, Camacho, Edinho e Tarantini; Madjer, Hansi Muller e Mário
Kempes; Messey, Claudio Adão e Bebeto. TÉCNICOS: Sebastião
Lazaroni, Telê Santana, Edu Coimbra e
Carlos Alberto Torres.
1º JOGO - JUVENTUDE A X JUVENTUDE B
Irmãos e amigos de
infância do Zico. Dois tempos de 30 minutos.
2º JOGO - NOVA GERAÇÃO (AZUL) X NOVA GERAÇÃO (BRANCO)
Garotos do projeto
dirigido por Zico. Dois tempos de 20 minutos.
..................................................................................
Versão de ‘’Tá Chegando a Hora’’
Na entrada do estádio, os torcedores receberam folhetos com a música adaptada para a despedida do Galinho, cantada a partir dos 30 minutos da etapa final.
Quem parte,
Leva a alegria
Também, se tudo que fez
Fez bem
Por isso, nada de choro
Na despedida
Do Galo de Ouro
Ai, ai, ai, ai
Zico não chora
Quem mora no peito da gente, rapaz
Jamais pode ir
embora
..................................................................................
Texto de agradecimento lido por Zico para as pessoas que estavam no gramado. No placar do estádio, as frases apareceram de quatro em quatro, para que o público pudesse acompanhar o discurso.
‘’Às vezes, descrever uma emoção é mais difícil que driblar o goleiro. Principalmente se essa emoção for do tamanho do Maracanã. Desde o campinho lá de Quintino até o maior de todos. Nesses gramados, eu joguei tudo que tinha. No começo, era só um garotinho mirrado com fome de bola. Mas teve gente que acreditou. E é por isso que eu estou aqui. Se futebol é uma caixinha de surpresas, pra mim elas quase sempre foram ótimas. Os grandes amigos, os grandes momentos, as maiores emoções. Conquistas que vão estar sempre ligadas ao futebol. Onde quer que seja. Aqui, com os companheiros do Flamengo. Com os companheiros de todos os times do Brasil e do Mundo. E, é claro, com a torcida que na base do carinho ajudou a marcar muitos gols. Fora do gramado, agora, eu me junto a essa grande massa colorida. Torcendo por todos aqueles que sempre estiveram ao meu lado. Dentro e fora de campo, fazendo o futebol brasileiro brilhar. Hoje, marco meu último gol. Aquele, para sempre, inesquecível. A todos que ajudaram a tocar essa bola, o meu muito obrigado."
Zico
Copyright © 2003,
Zico Participações. É proibida a reprodução total ou
parcial do conteúdo do Web Site Oficial do Zico para
fins comerciais.