INÍCIO  |  DO JUVENTUDE DE QUINTINO AO FLAMENGO  |  ZICO CONQUISTA O MUNDO  |  MISSÃO NA TERRA DO SOL NASCENTE

ico é o maior artilheiro da história do Flamengo com 508 gols em 731 jogos, e ídolo de uma nação com mais de 35 milhões de torcedores espalhados pelo país. Deixou sua marca 333 vezes no Maracanã, um recorde que ainda não foi quebrado por nenhum outro jogador. Conquistou a Itália nas duas temporadas em que jogou pela Udinese, deixando um tempero de feijoada na tradicional ‘macarronada’.  No Japão, tem a admiração de um povo que não se cansa de homenageá-lo pelo que ele fez no futebol da Terra do Sol Nascente. Os japoneses transformaram sua despedida definitiva dos gramados em um carnaval (1994), construíram duas estátuas, e o imperador entregou a ele uma comenda pelos serviços prestados ao país. A prova maior de confiança, no entanto, aconteceu no ano passado, quando lhe deram a árdua missão de assumir o comando da seleção nacional que busca a vaga na Copa de 2006.  Dos tempos de jogador, vale ainda destacar a reverência dos países por onde Zico apenas passou, como a França e a Espanha.

Não é possível precisar o momento em que o homem vira ídolo quando isso ocorre naturalmente, sem a influência de recursos para a construção de uma imagem.  Zico é mesmo um exemplo à moda antiga. E tudo partiu do aconchegante Bairro de Quintino, por uma conseqüência de dom, amor ao futebol, respeito, disciplina e muita determinação. Isso para citar alguns dos ingredientes principais da mistura. Nada artificial ou construído.

A relação com a bola nos tempos de menino, por exemplo, já era afetiva. Zico dormia com ela ao lado do travesseiro, tratava com muito carinho. Podia ser de meia, no jogo de botão, ou no totó, o importante era que as atenções estivessem concentradas nela: a bola. E ela nunca o deixaria em situação difícil. Aprendeu a ficar sempre perto dos seus pés, a obedecê-lo para encontrar o caminho do gol.

As primeiras lembranças de Zico no Maracanã são do dia 23 de abril de 1961, quando ele tinha apenas 8 anos. Talvez nesse dia tenha começado fisicamente o caso de amor do futuro craque com o Templo do Futebol. Levado pelo pai a um jogo em que o Flamengo acabou conquistando o Torneio Rio-São Paulo, o pequeno Arthur pôde acompanhar o talento de um alagoano chamado Edvaldo Alves de Santa Rosa, o Dida. O camisa 10 do Flamengo marcou os dois gols da vitória e consolidou-se como ídolo no coração e na memória do Galinho. Encantou o menino. Mas há quem jure de pés juntos que essa história começou bem antes. ‘Di-Da’ teria sido uma das primeiras palavras que Zico pronunciou, aos dois anos de idade.

Quatro anos mais tarde, Zico pisaria pela primeira vez no gramado do estádio que o consagrou, levado pelo vizinho Ivo, que trabalhava na administração do estádio. Nessa época o Galinho já entortava zagueiros e distribuía passes precisos no time de novos do Juventude, nos campos de soçaite, nas quadras de futsal ou mesmo nas peladas jogadas na rua. Mas, nos sonhos, o Templo do Futebol aparecia como o quintal de sua casa. Premonição.



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Do Juventude de Quintino ao Flamengo

Com 14 anos, Zico era requisitado para a disputa de torneios por outras equipes das redondezas, como o Inharé e o Maraviha. Foi quando Germano José Grilo - O Ximango -, criador e incentivador do Juventude, chamou o radialista Celso Garcia para ver Zico jogar num torneio no River Tênis Clube. A intenção era convencer Celso, um rubro-negro influente, a levar o menino para um teste no Flamengo, o que acabou acontecendo no dia 28 de setembro. Seu Antunes inicialmente foi contra e Edu queria levá-lo para o América. Mas Zico seguiu o coração e partiu para a Gávea. E no dia 1º de outubro marcou seus dois primeiros gols pela Escolinha do clube, na vitória de 4 a 3 sobre o Everest.

Em 1970, Zico recebeu um par de chuteiras das mãos de Carlinhos, que se despedia do futebol. Um gesto simbólico como um bastão passado pelo virtuoso meia na esperança de que o jovem jogador o conduzisse com mesmo nível. Assim, mesmo sem saber, o ‘Violino’ participou da formação daquele time dos sonhos.

Zico já era um jovem talento, mas alguns duvidavam de seu sucesso por considerar o Galinho muito franzino aos 17 anos. O fato de ter se desenvolvido pouco fisicamente preocupava alguns dirigentes. Apostando no talento do Galinho,  o vice-presidente George Helal convocou uma equipe de especialistas, que implantou um programa inédito de desenvolvimento físico para Zico adquirir massa muscular e agüentar o tranco dos zagueiros. O trabalho teve a coordenação de José Roberto Francalacci, Dr. José de Paula Chaves e José de Paula Chaves Filho. Nos quatro anos seguintes, o Galinho cresceu seis centímetros e ganhou nove quilos.

A cabeça permaneceu centrada nos objetivos, ainda que o corpo tivesse passado por grandes transformações. Sereno e equilibrado, o Galinho teve suas virtudes colocadas à prova por várias vezes e agüentou firme. O revés mais marcante é também apontado por ele como a maior decepção de sua carreira. Em 1971, atuou no time principal pela primeira vez e marcou um gol, no empate de 1 a 1 contra o Bahia, na Fonte Nova. No entanto, para disputar os Jogos Olímpicos de Munique, no ano seguinte, aceitou manter-se no time juvenil. Mas, na hora da convocação, seu nome não estava na lista. Zico ficou desapontado com o corte e pensou até em abandonar o futebol. O apoio da família foi fundamental para que ele seguisse em frente. Apesar da crise, o craque conquistou naquele ano o Campeonato Estadual, tanto nos juvenis como nos profissionais do Flamengo.

A segunda provação a que Zico foi submetido estava em um grito histérico que ecoava sem remetente, alimentado pela inveja e por ‘bairrismos’. Diziam que se tratava de um craque de laboratório, fabricado fisicamente dentro do Flamengo. O irmão Edu falou sobre esse assunto como muita propriedade. ‘’O laboratório era lá em Quintino, a comida da Dona Matilde’’, resumiu. O Galinho sofreria ainda a acusação de ser um jogador de Maracanã, incapaz de brilhar em outras praças. O tempo acabou revelando que essas afirmações eram absurdas. Zico ultrapassou esses obstáculos com a mesma inteligência que aplicava para driblar os zagueiros adversários e respondeu dentro do campo, colocando a bola na rede 831 vezes, em balizas espalhadas pelos quatro cantos do mundo.

Não há como negar que o Maracanã é sua grande casa. Foram gols inesquecíveis e voltas olímpicas marcantes. E ainda alguns recordes batidos na grama verde do Estádio Mário Filho. Com a mesma camisa 10 de Dida, Zico superou a marca do ídolo no Flamengo e chegou a 333 gols nas balizas do Templo do Futebol. Marcou ainda seis gols num único jogo, contra o Goytacaz, pelo Estadual de 1979 (7 a 1), igualando a façanha daquele que o inspirou.

Dida faleceu no ano passado aos 68 anos. No depoimento abaixo, publicado na biografia ‘Dida: Histórias de um campeão’, escrita pelo irmão Luiz Alves, o camisa 10 da Gávea nas décadas de 50 e 60 faz uma análise carinhosa do craque, fã e amigo.
 

"Muito se fala que Zico chegou ao clímax da fama por ser um craque pré-fabricado, produto de laboratórios. Mas isso não é verdade O que levou Zico à glória foi sua humildade e, mais ainda, suas qualidades técnicas congênitas, que nenhuma máquina ou laboratório poderia criar. Nenhuma máquina o ensinaria a chutar bolas com a perfeição do seu estilo e, muito menos, o ensinaria a ver o jogo dentro das quatro linhas. Afirmo ainda que, nenhum computador, que seja da mais moderna geração, conseguiria ensinar o Galinho a cobrar faltas com perfeição espetacular que somente ele sabe fazer. O reflexo extraordinário de Zico é qualidade que vem do berço, nenhum laboratório criaria isso.(...) Zico é mais completo do que eu fui... Ah! se eu tivesse a firmeza do chute dele, nem sei o que teria feito no futebol"

 

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Zico conquista o Mundo

A torcida do Flamengo reconhecia Zico como craque. Mas a idolatria ganharia ares de imortalidade quando a geração de ouro do Flamengo arrancou para a conquista do Mundo. O Galinho era um dos líderes daquele time mágico da década de 80 que tinha Raúl, Júnior, Rondinelli, Lico, Tita, Andrade, Adílio e outros grandes jogadores. Tudo começou no gol de Rondinelli na decisão do Campeonato Estadual de 1978. A partir dali foram levados de arrastão para a Gávea, na seqüência, o primeiro título nacional (1980), a Copa Libertadores da América (1981), o Mundial Interclubes (1981) e mais dois títulos brasileiros (1982-83). Sem contar que o Galinho foi o artilheiro em algumas dessas e em tantas outras competições.

Paralelamente, Zico esteve na Seleção Brasileira em duas Copas do Mundo. Em 1978, o Brasil não foi capaz de superar a Argentina, que venceu na bola e no grito; em 1982, o time encantou o planeta com o futebol arte, sob a batuta de Telê Santana. Mas não ficou com a taça novamente, perdendo a chance de disputar numa inesquecível derrota para a Itália.

Voltando a 1979, este foi o ano em que Zico conquistou o respeito internacional ao brilhar numa partida exibição pela seleção da Fifa. E uma excursão do Flamengo pela Itália chamou a atenção dos dirigentes da Udinese, clube que sempre lutava para se manter na primeira divisão e que, naquele ano tentava montar uma equipe competitiva para o Calcio. Mas os italianos só conseguiram levar Zico em 1983 e, mesmo assim com muito esforço. O Galinho era ídolo do Flamengo e não queria sair do país. Vendido pelo clube à revelia, embarcou com destino a Udine para fazer história. Exímio cobrador de faltas, fez tantos gols desse jeito que os goleiros chegaram a se reunir para buscar uma forma de pará-lo.

Não era por mero acaso que as redes balançavam. Desde jovem, Zico se esforçava muito para isso. Ajudava o talento com disciplina. A camisa pendurada no travessão como referência para as cobranças era o principal treino do craque. E como funcionou! A Udinese não conquistou títulos, mas fez campanhas heróicas na Liga. O Galinho foi destaque e artilheiro por média de gols.

A cabeça de Zico sempre esteve no Flamengo. E a volta aconteceu em 1985, duas temporadas depois de ter deixado a Gávea. Arthur já era Rei para a torcida Rubro-Negra e seus súditos esperavam ansiosamente por um retorno triunfal. Mas, no dia 29 de agosto daquele mesmo ano, uma entrada criminosa do zagueiro banguense Márcio Nunes colocou a carreira do craque em risco. O Galinho teve múltiplas lesões nas pernas, principalmente no joelho esquerdo. Retorno aos campos e interrupções na carreira alternaram-se com freqüência, e seriam necessárias quatro cirurgias nos anos seguintes para que Zico continuasse jogando.

A ida à Copa do Mundo de 1986 viria a ratificar a coragem e a superação do craque. Alguns duvidaram que ele voltasse a jogar depois da grave contusão. A resposta veio num Fla-Flu no ano da Copa, que carimbou seu passaporte para o México. O técnico Telê Santana o levou e quis o destino que um pênalti decisivo contra a França, durante o tempo normal de jogo, acontecesse logo após sua entrada em campo. Ele bateu a penalidade e o goleiro francês defendeu. Vale destacar que a jogada que originou aquele pênalti sofrido por Branco nasceu de seus pés.  Após empate no tempo normal, ele voltou a cobrar um pênalti e dessa vez converteu, mas o Brasil acabou eliminado.

De volta ao país, Zico manteve seu reinado no coração dos Rubro-Negros. E a luta para continuar jogando continuou constante. Ele convivia com dores freqüentes no joelho. O reencontro com os títulos só aconteceu no ano seguinte. Atuou na vitória sobre o Internacional, 1 a 0, gol de Bebeto, no Maracanã lotado. No vestiário após o jogo, o Galinho ouviu seu nome ser gritado pela torcida e teve de voltar para ser reverenciado pela conquista do tetra Rubro-Negro, que também era o seu quarto título nacional com o Manto Sagrado.  

Em 1988, Zico ainda participou de 25 jogos, que se somaram aos 32 de 1989. Numa homenagem aos italianos, despediu-se da Seleção com um jogo em Udine, em 27 de março de 89. O Brasil perdeu de 2 a 1 para uma seleção de estrangeiros. Dia 6 de fevereiro, no ano seguinte, com o Maracanã lotado, aconteceu o que a torcida do Flamengo não queria: a despedida com o Manto sagrado. Foi uma festa emocionante e Zico se preparou muito para esse dia. Mas era um até breve, pois o ídolo ainda voltaria aos gramados, do outro lado do mundo.



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Missão na Terra do Sol Nascente

Não demorou muito para Zico retornar aos gramados. Em maio de 1991, aceitou convite para a missão de desenvolver o futebol no Japão. Atuar no Sumitomo Metals, que depois mudaria de nome para Kashima Antlers, e montar a estrutura para a embrionária J-League. O Galinho voltou às origens, ou seja, aos campos de terra batida e futebol amador. Não demorou muito para que os japoneses se rendessem ao seu talento. E, assim como aconteceu no Brasil, o Galinho conquistou o povo. Recebeu o apelido de Jico San. Marcou lindos gols com a camisa 10 do time vermelho e azul, dois deles que estão entre os mais bonitos da sua carreira, ambos em 1993. Um de bicicleta, na vitória sobre o Fujita por 2 a 1, e outro na goleada de 6 a 1 contra o Thoku Eletric. Zico golpeou a bola com o calcanhar, apanhando ela em pleno ar para o arremate.

O futebol japonês e o Kashima rapidamente cresceram. Zico conquistou títulos e o reconhecimento pelos serviços prestados aconteceu na festa de despedida. Reunindo familiares e amigos do craque, os nipônicos promoveram o Carnival 94´, em outubro deste mesmo ano. Houve uma série de eventos em homenagem ao mito que abandonava os campos de vez, pelo menos como jogador.  

O radialista Celso Garcia, que acompanhou todas as fases do craque, analisa a consolidação de Zico como ídolo.
 

‘’Zico nunca teve a preocupação em ser ídolo e ter uma ‘máquina’ trabalhando  a favor dele. Muito pelo contrário, ele tinha que lutar  muito, fazer gols no Rio e em São Paulo para quebrar a história de que era jogador de Maracanã. Tinha que matar um leão por dia e passou por momentos difíceis por causa dessa pressão. Jamais, em tempo algum, gostou de ser comparado ao Pelé, por exemplo, e sempre reconheceu o lugar dele no futebol. Chegou ao topo primeiro pelo que  jogava, mostrando ser um craque;  segundo porque jamais criou problema. Jamais quis regalias como alguns jogadores de hoje. Reivindicava pelos atletas, nunca pediu exceção. Zico sempre foi disciplinado e isso dá a ele a condição de ídolo nato. O que era dele era dos outros e o que era dos outros era dele.  Tem ainda a questão de que sempre respeitou os adversários. Zico nunca comemorou debochando da torcida adversária, sempre para a torcida do Flamengo. Não há quem não tenha admiração por ele, pela sua conduta dentro e fora de campo. Fico impressionado até hoje com a paciência para dar autógrafos e tirar fotos, por duas, três até cinco horas. Acho que tudo isso ajuda a explicar a idolatria por ele‘’
 

Zico ainda desfilou seu talento pelas equipes de Masters do Flamengo e do Brasil, além de ajudar o futebol de praia a se desenvolver no país. Hoje em dia, a bola só passa pelos pés do craque nas peladas ou para mostrar como se faz aos jogadores da seleção japonesa, onde segue na carreira de treinador tendo o irmão Edu Coimbra como auxiliar. A imagem do ídolo, no entanto, está garantida. Frisada num lance que a estátua foi capaz de captar, no chute a gol reproduzido num quadro, nos vídeos, fotos e, principalmente, na memória de quem o viu jogar.



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