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Jacqueline Silva- Uma guerreira
Um dos momentos em que a rádio parava era quando Zico chegava para gravar a “Memória...” Não havia como ser diferente num lugar em que a quantidade de torcedores do Flamengo era naturalmente acima da média.
E numa das gravações, no primeiro semestre de 2002, as atenções se dividiram em função da força do personagem. É porque não dá para dizer que Jackie Silva passe incólume por algum lugar. Polêmica, verdadeira, apaixonada, guerreira... Jacqueline tem esses e mais alguns predicados que fizeram dela uma das maiores jogadoras da história do vôlei mundial em todos os tempos.
Contemporânea de Zico, Jackie concedeu uma bela entrevista ao Galinho. Carinho mútuo, uma dose sensível de saudosismo e a revelação justa de um pouco de mágoa. Estes são alguns ingredientes do papo, que você confere abaixo.
ZICO: Hoje na Memória do Flamengo uma das maiores atletas do país, primeira mulher a ganhar uma medalha de ouro, ao lado da Sandra Pires, em Jogos Olímpicos em 1996. Passou mais de 10 anos no “Mais Querido”. Ficou conhecida como Jackie Silva. Jacqueline, como foi o seu início no Flamengo?
Bom, eu comecei no Flamengo quando tinha 9 para 10 anos de idade e já era flamenguista. O então técnico, Ênio Fiegueiredo, me levou do colégio Notre Dame para a Gávea, para onde ele tinha acabado de se transferir. E lá eu conquistei grandes títulos.
O Flamengo conquistou dois Brasileiros e você foi até a seleção. Muita história.
Fui laureada pelo Clube. E foi realmente uma fase muito brilhante. Uma fase em que aprendi muita coisa, em que cresci no clube. Hoje sinto muita falta desse ambiente do clube, das amizades. Até hoje sou muito amiga da Isabel, onde ali dentro do Flamengo, nós duas fomos sendo projetadas.
Foram quantos anos?
Dez anos. Foi uma época em que para você ser jogador tinha que representar um clube. Os clubes tinham esse valor no esporte amador. O Flamengo sempre teve um bom trabalho de base, não tinha empresa. Tinha que praticar no clube. Fiquei ali até assinar o primeiro contrato com uma empresa. Logo que elas entraram no esporte eu fui para a
Supergasbras.
Além do Ênio, que outros técnicos marcaram você?
O Ênio pegava adulto e juvenil, mas tinha um técnico do mirim, o Ramon Papi. Olha, fui muito feliz, era campeoníssima (risos). E o Ramon me ensinou muito, foi muito importante no meu crescimento como pessoa independente da jogadora que eu era. Esses treinadores são muito importantes na formação das pessoas. Acho que para ser um bom atleta precisa passar por um bom educador. Não sei se tem ser bom treinador, mas tem que orientar para que você tenha boas atitudes.
E muitas vezes, cito o meu caso, esses profissionais não ficam muito famosos, talvez seja o caso do Ramon que você lembrou. Quando comecei no Flamengo, uma pessoa muito importante foi o Zé Nogueira. Muita gente passou por ele no Fla, mas ele nunca se tornou um grande. Só fica lá entregando de mão beijada...
Mas eu sinto que há uma diferença muito grande. Sei que a minha parte técnica foi muito bem trabalhada pelo Ênio, mas existia um outro lado que era incrível. Eu hoje trabalho com categorias de base, iniciação no vôlei e estou sempre em busca desse treinador que tem carisma, uma atenção diferente com as crianças. Elas gostam dele e tanto faz o jogo que sai, se eles vão dar para o esporte ou não. Esse treinador tem uma função importante na vida do jovem. São difíceis de encontrar e nem sei se eles têm noção do que eles são. Sei que é de extrema importância, nem sei se há um treinamento para formar este tipo de profissional, mas deveria existir.
Uma formação não é Jaqueline?
Eles realmente não chegam a ser o primeiro treinador da equipe. Nem conseguem. E talvez nem almejem isso, pois o objetivo deles é outro. Quem alcança outro nível é muito estressado (riso), tem outro tipo de relação e a cobrança é muito forte. Já não vê o atleta como ser humano e sim como uma máquina. Conversando com outros atletas, passei a achar que esses técnicos têm problemas de rancor e tristeza e foram alguma vez confundidos com uma máquina. Foram maltratados e ficaram
assim.
Uma cobrança que não deve acontecer. Certa faixa etária você tem que apenas lapidar para trazer alegria ao atleta em participar e fazer. E acima de tudo eles tem que se divertir e deixar vir à tona o prazer. E dentro desse prazer, você como torcedora rubro-negra, qual foi o título que mais te deu prazer, alegria e emoção?
Jogar pelo Flamengo é um prazer e uma emoção muito grande. Depois eu passei a jogar por empresas tudo fica muito diferente. O carinho que você tem dentro clube, as pessoas que gostam do Flamengo e adoram você. Isso tudo te comove, aproxima do calor humano quando há a conquista de um título. Leila e Virna experimentaram isso mais recentemente. Elas nunca viram aquilo. Elas acostumaram com as empresas.
Você era contestadora, reivindicava. Teve muita dificuldade no Flamengo?
No Flamengo eu ainda não era assim. Pelo fato de eu ter ido jogar na primeira empresa no esporte, isso deixou muita mágoa. E no ano seguinte eu voltei e me despedi do esporte de quadra no Flamengo. Acho que os clubes precisavam investir mais no esporte amador. O lado social, da família. Hoje trabalho na praia, mas sonho em ter um clube, não precisa ser do tamanho do seu, Zico. Tenho um pouco de tristeza porque a direção naquele momento bateu as portas para mim. Nós que somos atletas sabemos que tem que ser feita uma série coisas antes do jogo, que é o final da história. Tem que fazer o dever de casa e acho que o Flamengo estava fazendo muito mal o dever de casa.<br><br>
Mas e a sua experiência na praia, como é levar nota 10 e fazer o dever de casa bem feito?
Bom, falando do meu lado polêmico. Fui uma jogadora marcada pelas coisas que contestei, pela maneira como falava. Hoje vejo vários jogadores que sofrem pelo mesmo motivo. No Brasil, sempre acontece isso. Quando fui para os EUA, esse meu jeito era a coisa mais valiosa pra eles. Aqui no Brasil, não é legal.
Você sempre foi bem vista entre os atletas porque brigava pelas suas coisas, seu ideais.
Acho importante que os atletas tenham isso. Vejo que a seleção de futebol hoje não representa nada para mim, eles vão lá fazem o gol e beijam o Felipão (risos). Virou o ser político. Agrada o torcedor e o treinador. Só que esses não tão agradando na bola. E tem que ser por aí, na bola, decidir o jogo Ter decisões bem feitas. Normalmente esses diferentes não são atletas
calmos.
Todo atleta que vive o momento da decisão precisa ser firme.
E vai contestar, vai tentar entender e vai ser diferente de alguma forma. E aqui no Brasil ele está sendo encostado, ele não é querido.
Você falou em decisão. Queremos saber agora sobre a sua ida para o vôlei de praia nos EUA. Estava no Japão vendo aqueles canais, não entendia nada. Tinha que buscar a ESPN, e de repente vejo o nome Silva do vôlei. Cortou para um lance da dupla, uma morena e aí falei, essa é a Jaqueline.
Pois é, essa foi uma decisão difícil na minha carreira. Já tinha me aborrecido muito aqui e eles já tinham se aborrecido muito comigo. E fui como aventureira, porque o vôlei de praia não tinha essa organização que tem hoje. Lá, ajudei a fundar a primeira associação de jogadores e o que eu tinha era sonho pra mim e para aquelas que estavam lá. Estava a procura de alguma coisa diferente para mim. Como contestava aqui, tem uma hora que ou você encontra o que quer ou desiste. Já não conseguia mais jogar aqui, fui cortada da seleção, não tinha espaço. Lá, foi engraçado, não falava inglês e a única coisa que sabia fazer era jogar vôlei, era minha língua. E a minha contestação estava no meu jogo. A regra era muito apertada e os jogadores só levantavam de manchete. Eu não queria saber e ia de toque, queria mostrar que era possível. A mulher não bloqueava e eu introduzi o bloqueio e mostrei, fui mudando o jogo. Eles me acolheram muito bem.
E você já imaginava que pudesse depois de tudo isso, começando no vôlei de praia, estar disputando medalha de ouro.
Aconteceu uma coisa interessante que foi conhecer um treinador daquele de início de careira, uma sorte nos EUA. O Pat Zartman, um homem que me colocou nas Olimpíadas. Ele via minha dificuldade com a língua, mas via minha capacidade de jogar vôlei. Então, num determinado momento depois de 6 anos, ele disse pra eu voltar para o Brasil, coisa que eu não fazer pois estava traumatizada. Ele me disse para voltar e procurar uma parceira, porque as Olimpíadas teriam vôlei e eu precisava ganhar aquela medalha de qualquer maneira. Ai eu vi a dificuldade de voltar. Quando cheguei, o Brasil já queria que eu ficasse. O mesmo que me expulsou me fez assinar um certificado dizendo que eu não voltaria para lá. Essa história ninguém sabe...
Nessa hora o coração falou mais alto, o coração é Brasileiro e o espírito Rubro Negro.
Engraçado que até a família queria que eu ficasse lá. Acho que o homem á de cima vê isso e me protege, o destino está traçado.
Você sempre buscou seu ideal, deu pontapé numa modalidade e nada mais justo foi a medalha. Queria que você falasse sobre isso.
Maravilhoso. Sonho em viver isso de novo. Realmente aquilo é uma luz, você deve saber, a energia do mundo se junta e vai dar certo. E é impressionante que as pessoas perguntam porque eu não chorei. Mas eu digo que chorei muito antes com uma série de coisas q eu tive de passar. E, para mim, nada merecia choro. Era um filme que passava e eu via um final feliz. Fico feliz de Ter podido sentir isso, porque não sei se todo mundo pode sentir isso.
Nós brasileiros nos orgulhamos muito e eu me sinto honrado como rubro-negro, por essa medalha ter saído da prata da casa.
Quero falar também que sinto falta de tudo aquilo que passei. Gostaria de entrar no Flamengo e ter lá meu nome, lembrando que eu saí de lá. Essa memória não pode ser apagada porque acho que a história precisa dela, o Flamengo precisa. E os atletas de hoje precisam saber o que foi o passado do clube.
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Dida

Jacqueline |